Vista do alto dos montes, a aldeia era minúscula. Uma vintena de casas aninhadas nas profundezas do vale, tão bem escondidas, tão bem deitadas sobre o seio da montanha que dela mal se distinguiam. Alguns fios de fumo branco pairavam sobre as copas dos pinheiros e castanheiros, o único sinal de que ali havia vida. Quase no pico de uma das montanhas que ensombravam a aldeia, Fernão observava o mundo em paz. Não muito longe o seu rebanho pastava docilmente, o balir esporádico das ovelhas o único som que cortava o ar áspero de fim de Outono.
Enrolado num manto de lã grosso, Fernão esforçava-se por não adormecer. Saíra de casa muito antes do nascer do Sol e demorara horas a subir os trilhos e caminhos que trepavam pelos montes até chegar ali. Na verdade, não precisava de acordar tão cedo, e nem sequer devia de arriscar o rebanho naquelas alturas, mas era mais forte do que ele, o desejo de estar bem perto do céu, com o nariz a roçar o azul e a ver o Sol a levantar-se sobre o mundo. Nunca se cansava da imensidão, da impressão de que havia muito mais para além das dobras e sombras dos vales.
Por cima da sua cabeça a noite resistia, era como se ele estivesse no fundo de um poço a olhar para cima, para uma mancha de carvão salpicada por pedras preciosas. No oriente o Sol pairava um pouco por cima do horizonte,ainda fraco, a queimar o céu com raios pálidos e esbranquiçados. A Oeste a Lua cheia ainda mostrava o rosto inchado e prateado.
Em comparação, as pinturas no interior da pequena capela da aldeia pareciam-lhe estúpidas, imitações fracas feitas por gente que nunca tinha visto o céu com olhos de ver. Se não fosse obrigado pelo pai (e ameaçado pelo padre), preferiria muito mais rezar ali todas as manhãs do que ir morrer de tédio nas missas de Domingo.
Um berro distante interrompeu-lhe as divagações sonolentas. Ao princípio não percebeu bem de que direcção tinha vindo o grito. Nem sequer tinha a certeza de o ter, realmente, escutado, ou se tinha sido só a sua imaginação. Ficou à escuta durante largos segundos, de pé, mas não ouvia nada a não ser o vento constante, a sussurrar contra os arbustos e as rochas. Até o rebanho se tinha calado. Então um segundo bramido ecoou pela montanha, claro mas distante.
Foi num terror absoluto e repentino que Fernão compreendeu o que estava a ouvir. Deixou cair o manto e começou a correr na direcção que julgava a certa. Ali a montanha era feita sobretudo de vegetação rasteira, arbustos densos e moitas espinhosas que cresciam entre grandes rochas e pedregulhos. A correr e aos saltos, Fernão seguiu a inclinação natural do solo, que descia suavemente. Os gritos eram agora mais frequentes e cada vez mais próximos, mas soavam de uma forma estranha e não se via nada na face do monte. Ao saltar entre duas grandes rochas, Fernão quase que perdeu o equilíbrio ao ouvir um grito vindo directamente debaixo de si.
Escondida pelos arbustos, uma fenda quase invisível abria-se entre as duas pedras. Era um buraco com menos de uma vara de largo e talvez duas ou três de comprimento. Naquela semi-luz da madrugada Fernão mal conseguia ver o fundo, mas dois olhos brilhavam muito lá em baixo, dois pontinhos de luz assustada que baliam ainda mais alto agora que o sentiam ali.
Fernão ainda considerou voltar à aldeia com o resto do rebanho e ir pedir ajuda, mas depressa mudou de ideias. Não só não lhe apetecia levar um raspanete, ou pior, do pai, como tinha medo de que a ovelha morresse no tempo que lhe levaria a ir e voltar. Por isso, mesmo sabendo o risco que corria, decidiu tentar salvar o animal ele mesmo.
Metendo primeiro as pernas na fenda, tateou até encontrar apoios para os pés. Depois, muito devagar, desapareceu nas trevas. A rocha era rugosa e irregular, com bastantes saliências e buracos onde enfiar os pés e as mãos, mas também estava coberta de musgo e humidade e Fernão acabou por descer com a cara bem colada contra a parede, com medo de escorregar e de cair, partido em dois, junto da ovelha. Demorou uma eternidade a chegar ao fundo e sentiu-se a entrar nas profundezas da montanha, a fenda lá em cima cada vez mais pequena e distante. Por fim sentiu o nariz húmido da ovelha a cheirar-lhe os tornozelos e saltou, ligeiro, para o chão surpreendentemente plano e liso. O espaço era muito estreito e o animal estava preso entre as paredes, incapaz de se virar e, agora que Fernão a via de perto, a lã estava molhada e manchada de vermelho. Pelo menos parára de balir, mesmo se continuasse a tremer violentamente. Chegado ali, Fernão rápido se apercebeu de que o mais difícil ainda estava por fazer. Como é que, sozinho, ia tirar dali a ovelha?
Começou por tentar empurrá-la para trás e para a frente, para a soltar, mas pouco ou nada conseguiu. Enfiou-se por baixo da barriga dela e tentou empurrá-la para cima, talvez mesmo metê-la às costas, mas isso pouco mais funcionou. Por fim, já desesperado, escalou até se meter por cima dela, com um pé em cada parede, e tentou puxá-la por cima.
Logo á primeira tentativa sentiu algo a ceder. Encorajado, puxou com mais força ainda, os dedos bem enfiados nos lados da ovelha, e de novo sentiu que se tinha aberto mais espaço. Decidido, respirou fundo e preparou-se para um derradeiro esforço. Puxou com todas as forças que tinha e a ovelha berrou de novo. Sentiu o animal a soltar-se e a erguer-se no ar, leve, como se de repente não pesasse nada.
Durante um breve momento Fernão admirou-se com a sua própria força, até se aperceber de que em vez de ter conseguido libertar a ovelha, tinha sido a parede que tinha cedido, que em vez de ter levantado a ovelha no ar, estavam na realidade os dois a cair pelo buraco que se abrira debaixo das suas pernas.
A ovelha recomeçou a gritar e Fernão começou a gritar com ela.
Rebolaram, deslizaram e caíram juntos numa confusão de pedras, pó e lã. Só pararam bastante mais longe e mais fundo, enrolados um no outro, na mais total escuridão. Atordoado, Fernão limitou-se a respirar durante vários minutos. Ao seu lado a ovelha pôs-se de pé, a tremer ainda mais do que antes.
Fernão apalpou os braços e as pernas, um de cada vez, e ficou aliviado ao descobrir que não tinha partido nada. Levantou-se também e pôs uma mão na cabeça da ovelha, tanto para se amparar como para a tentar acalmar.
Não conseguia ver nada. Apalpou à sua volta, à procura de uma maneira de voltar, mas tudo o que encontrou foram pedregulhos e paredes altas. Estavam num túnel ou numa espécie de corredor, largo o suficiente para que ele e a ovelha pudessem andar lado a lado, mas no sítio onde tinham caído parte do túnel tinha desabado. Fernão conseguia sentir as pedras enormes que bloqueavam o caminho e, ao tentar trepá-las, bateu com a cabeça no tecto. Sem outra escolha, começou a andar na outra direcção, a ovelha a segui-lo, silenciosa, bem colada às suas pernas.
O ar ali era frio e bafiento e, no silêncio cego, tudo o que ouvia eram os seus passos e o gotejar de água. Para se guiar na escuridão, Fernão avançava cuidadosamente, uma mão contra a parede no seu lado esquerdo. A princípio a superfície pareceu-lhe rugosa e irregular mas, quanto mais caminhava, mais tinha a impressão de que havia formas na parede. Conseguia senti-las contra a palma, curvas, linhas e círculos desenhados na rocha fria, a formarem figuras que na sua mente tomavam proporções estranhas e exóticas.
Andou durante o que lhe pareceram horas. O medo começava a pesar-lhe cada vez mais no estômago e tinha de se esforçar para não se imaginar morto de fome num buraco escuro, sem que ninguém o encontrasse, uma alma penada e perdida nas entranhas da montanha.
Um minúsculo ponto de luz pálida surgiu no meio do vazio sem cor. Ao princípio Fernão pensou que estava a ver coisas. Esfregou bem os olhos e pestanejou com força, mas a luz continuava lá. O próprio ar parecia estar a mudar, cheirava-lhe mais fresco e menos parado. Aliviado, Fernão correu nessa direção, a luz a aumentar à medida que ele se aproximava, até tomar a forma de um retângulo prateado pelo qual ele passou a toda a velocidade.
Mas assim que saiu do túnel os seus passos perderam toda e qualquer força e ele estacou, de boca aberta, a olhar em redor.
Primeiro porque ficou cego com a luz repentina, mas foi o que viu quando os seus olhos finalmente se adaptaram que o deixou estarrecido. Tinha entrado numa caverna enorme, iluminada por diversos feixes de luz que penetravam através de rachas e fendas na rocha, lá muito no alto. Esta luz dispersava-se num chão de pedra trabalhada em grandes blocos, decorados com formas complexas que se interligavam umas com as outras. De cada lado da caverna, tão larga que metade da sua aldeia podia caber ali dentro, erguiam-se gigantescas colunas de pedra esverdeada, mais altas do que qualquer outra coisa que ele já tivesse visto. Nestas colunas havia gravuras, desenhos e linhas esculpidas na pedra que, de imediato, lhe lembraram as figuras que sentira nas mãos momentos antes. Mas agora podia vê-los, animais e criaturas que não reconhecia, a perseguirem-se uns aos outros em espirais que só paravam no tecto.
Havia água por todo o lado. A escorrer pelas colunas e pelas paredes e acumulada em poças no chão. Plantas e musgo cresciam por toda a parte, a racharem a pedra trabalhada e a treparem pelos pilares e paredes. Havia também um burburinho surdo no fundo de tudo, o som inconfundível de água corrente, abafada e distante.
O outro lado da caverna estava a umas cem varas de distância e era pouco visível naquele jogo de luz e escuridão, mas havia algo que refulgia e brilhava na penumbra cavernosa, como uma estrela prateada, encerrada nas profundezas da terra.
Fernão atravessou a caverna com passos inseguros que ecoavam pelos enormes espaços vazios, acompanhados pelo clip clop dos cascos da ovelha. Aos poucos as sombras no fundo do salão tomaram forma, revelando uma parede extremamente bem trabalhada.
Duas colunas escuras, mais largas do que dois homens ombro a ombro, erguiam-se a dez varas uma da outra e tão altas quanto o tecto da gruta. A base de cada uma tinha sido esculpida na forma de um javali e os pilares em si estavam decorados com mais das mesmas figuras e desenhos complicados. Entre as colunas havia um grande bloco de pedra preta, húmido com a água que pingava de algures no tecto. Musgo, pequenos abetos e cogumelos cresciam na sua base, mas era o que estava deitado sobre a pedra que deixara Fernão petrificado.
Um esqueleto inteiro repousava sobre o túmulo, os ossos mais amarelos do que brancos e com vegetação a crescer entre as costelas. A caveira era vermelha, como a coroa de ferro que ainda tinha presa em redor do crâneo. Mas aquilo que prendia o olhar de Fernão era o que as mãos ossudas seguravam sobre o peito. A luz reflectia no pomo de uma espada, forjado na forma de uma cabeça com um rosto velho e barbudo. Apesar de manchada de verde, ainda havia bronze intacto no rosto zangado. A guarda e a lâmina estavam em pior estado, escamosas e cobertas de verdete.
O medo deu lugar à curiosidade. A ansiedade foi substituída por coragem. A precaução esquecida pela estupidez. Sem pensar, Fernão escalou para cima do túmulo.
A ovelha baliu em protesto.
De pé em cima do túmulo, Fernão afastou com cuidado os dedos que estavam enrolados no punho da espada. Ainda assim, vários partiram-se e desfizeram-se em pó granuloso, como farinha empapada. A espada soltou-se com facilidade. A lâmina em si era tão longa como o braço de Fernão, do ombro até á ponta dos dedos, e era mais pesada do que ele esperara. Teve de a segurar com as duas mãos mas, a sorrir de orelha a orelha, Fernão ergue-a por cima da cabeça, numa pose victoriosa.
O sorriso deu lugar a um grito mudo quando a pedra cedeu, de novo, sob os seus pés. O chão inteiro à volta do túmulo cedeu, os grandes blocos de pedra a desaparecerem pelo buraco que se abrira e que agora engolia ovelha, esqueleto e rapaz também. A queda foi alta o suficiente para que Fernão tivesse tempo de pensar que nunca chegaria ao fundo, imediatamente antes de mergulhar, de chapa, em água gelada.
O barulho era ensurdecedor e os remoinhos e correntes tão fortes que ele mal conseguia manter a cabeça à tona. Na escuridão era impossível saber onde ficava a superfície e onde ficava o fundo. Entre cambalhotas e pancadas contra pedras e rochas, respirava sempre que sentia o ar frio no rosto, mas ainda assim engolia mais água do que ar. Os pulmões ardiam-lhe cada vez mais e começavam-lhe a faltar as forças. Um negrume mais denso do que a escuridão da montanha latejava-lhe nos cantos da visão.
Estava a morrer.
Sentia a vida a fugir-lhe do corpo e não conseguia fazer nada a não ser ser arrastado com violência até ao inferno.
O túnel fez uma curva abrupta e desembocou de repente numa abertura irregular na rocha, um círculo através do qual Fernão foi cuspido às piruetas. Mal teve tempo de respirar ou sentir alívio pois meio segundo depois caiu de novo em água fria.
Mas desta feita não havia corrente e conseguia ver a superfície, e o céu azul para lá dela. Nadou com todas as forças até emergir, por fim, a inspirar grandes golfadas de ar sôfregas e desesperadas. Estava num pequeno lago rodeado de rochas e floresta. Umas vinte varas mais alto, uma cascata de água barulhenta irrompia da face do monte.
Ele conhecia aquele sítio. Já ali fora várias vezes com os amigos, quando o calor apertava no Verão. Mas não fazia sentido. Estava longe, muito longe do topo da montanha onde deixara o rebanho.Confuso e com frio, Fernão nadou para a margem e trepou para fora da água. Só então se deu de conta de que ainda estava a segurar a espada. Sentado contra o tronco de uma árvore, pode admirá-la pela primeira vez, à luz do Sol.
A lâmina estava coberta de verdete mas em certos pontos ainda era possível ver o metal original e os estranhos símbolos nele gravados.
No pomo, o rosto barbudo fitava-o, zangado.
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